15 anos de Carlos Capslock: como uma piada entre amigos virou uma das festas mais importantes de São Paulo
Em 2010, Paulo Tessuto encontrou na internet a foto de um garoto loiro de aparência nerd, levemente parecido com Macaulay Culkin, e decidiu transformá-lo em personagem. Não tinha plano, não tinha budget. Tinha uma piada entre amigos e uma festa marcada na Trackers para 80 pessoas. Naquele mesmo momento, a cena paulistana ainda organizava sua fila por camarote, com entrada seletiva e público homogêneo. Tessuto enxergou esse vácuo e preencheu com nonsense, montação e drum machine — criando, meio que “sem querer”, uma das festas mais importantes que São Paulo já teve.
O personagem Carlos Capslock é o alter ego nerd de Tessuto — descrito em tom satírico como um "hipocondríaco, designer de teclados e deformador de opinião", que ele frequentemente incorpora como uma drag queen. Mas por trás da brincadeira havia uma intenção: injetar uma abordagem imersiva e performativa na cena underground, resgatando o espírito dos club kids de Nova York do fim dos anos 80. A festa nasceu com o apoio do coletivo Voodoohop e trouxe desde o início uma proposta que misturava música eletrônica, performance, figurinos extravagantes e artistas visuais interagindo com o público.
O conceito que guiava tudo isso era o que Tessuto chamava de "esquizofrênese" — um estado de libertação e quebra do clubber convencional, onde o público era incentivado a se desprender de inibições e preconceitos. Enquanto outras festas vendiam exclusividade, a Capslock vendia o oposto: uma zona de suspensão onde as regras da noite convencional simplesmente não valiam.
Esse posicionamento também se traduziu na esfera política. A festa passou a não cobrar entrada de pessoas trans, não-binárias e drags. A curadoria artística e o staff buscavam manter proporcionalidade étnico-racial e socioeconômica. Tessuto exigia educação e respeito mútuo entre todos os colaboradores, construindo uma estrutura de co-criação que era rara — e ainda é — na cena noturna brasileira. A Capslock não apenas abriu espaço para corpos e identidades que outras festas ignoravam; ela foi uma das pioneiras em tornar esse espaço uma política explícita.
Além das quatro paredes dos clubes, a festa levou a música eletrônica para o asfalto. Participações na Virada Cultural em 2012, 2014 e 2018, e no SP na Rua em 2015, 2016 e 2018, posicionaram a Capslock como um projeto de ocupação urbana real, que entendia a cidade como palco e a pista como instrumento de transformação. Pesquisadores da Universidade Paulista chegaram a estudar a festa como caso exemplar da migração da música eletrônica dos clubes para as ruas de São Paulo — e de como esse movimento carregava um viés político profundo sobre o uso do espaço urbano.
Com o tempo, a Capslock ultrapassou as fronteiras de São Paulo. Tessuto realizou oito turnês europeias, levando a festa para clubes como o Tresor, o Salon Zur Wilde Renate e o Sisyphos, em Berlim, além de uma edição no Shift, anexo do Berlin Atonal. No Brasil, ele se apresentou em grandes festivais como Tomorrowland, Rock in Rio e Dekmantel, o que abriu espaço para um showcase especial da Capslock no palco New Dance Order, do The Town. Além disso, o coletivo chegou a cidades como Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza e Recife, e o selo MEMNTGN, fundado por Tessuto e L_cio, passou a distribuir internacionalmente pela Kompakt — uma das gravadoras mais respeitadas dentro da cena underground.
Em 2023, a Capslock deu mais um passo ao lançar seu primeiro festival, celebrando 12 anos com 19 horas de duração, três pistas e mais de 50 artistas. O formato cresceu nas edições seguintes, consolidando o festival como um dos eventos mais aguardados do calendário eletrônico paulistano. Nomes como Badsista, Ellen Allien, DVS1, DJ Hell, Bjarki, Mama Snake, DJ Marky e Juliana Huxtable já passaram pela festa ao longo desses 15 anos — uma lista que diz muito sobre o nível de curadoria que a Capslock sempre manteve.
Agora, no dia 19 de junho, a festa celebra 15 anos com mais uma edição do festival. Três pistas, mais de 30 artistas e entre os headliners: Radio Slave. Por trás do nome está Matt Edwards — DJ, produtor e fundador da Rekids, label que virou referência mundial para o house e o techno underground desde 2006. Dono de sets longos, hipnóticos e construídos camada por camada, Radio Slave representa exatamente o tipo de artista que a Capslock sempre soube escolher: alguém que leva a pista a sério.
Além do artista britânico, outros dois nomes de peso já foram anunciados: BATU, Ananda e IDLIBRA. Diretamente de Bristol, BATU se consolidou como um dos principais nomes da nova música de clube britânica, à frente da Timedance e de uma estética que tensiona techno, bass music e experimentação rítmica, com foco em estruturas menos previsíveis de pista.
Já Ananda, figura central da cena carioca, atua como DJ e agente cultural, expandindo seu impacto através da KODE — plataforma que articula música, identidade e inclusão — enquanto sua pesquisa sonora transita com fluidez entre techno, breaks e vertentes híbridas do club contemporâneo. Além dela, IDLIBRA é um dos nomes anunciados. Diretamente de Olinda/Recife para o mundo, a artista se consolida como uma das principais representantes da nova geração da música eletrônica brasileira. Desde 2016, vem desenvolvendo uma sonoridade própria que transita entre o funk brasileiro, grime, ballroom, techno e vertentes experimentais, utilizando a pista como um espaço de expressão, inovação e resistência cultural.
Quinze anos depois daquela primeira noite na Trackers, com 80 pessoas e uma piada como ponto de partida, a Carlos Capslock chega à sua adolescência provando que resistência e diversão não são conceitos opostos. São, na verdade, a mesma coisa.
Imagem de capa: Divulgação.
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